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...o real e o poético se misturam no Jornalismo

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Estudante de Jornalismo em Multimeios da Universidade do Estado da Bahia.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

A narração e contextualização


Na tentativa de esclarecer o leitor sobre um acontecimento atual proveniente de outra circunstância, o jornalista causa uma ruptura da narrativa para contextualizar esses elementos com dados novos, como explica Lima (2004), ou reordenando os dados conhecidos de modo a construir uma narrativa fluente. “È conveniente que instigue o leitor, dando-lhe elementos que possa mesclar com outros para ele próprio encontrar novas combinações possíveis de compreensão do mundo” (LIMA, 2004, p.146); Ainda sobre isso, diz Medina (1988); “o narrador vem vindo fluentemente e, de repente, introduz uma explicação, um esclarecimento, mudando o ritmo da narrativa".

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

A crônica da realidade e a imaginação

O discurso literário presente na crônica da realidade está fundado na possibilidade de traduzir diferentes matizes do real defendidos por Cremilda Medina· ao afirmar que a consciência possui a capacidade de apreender as inter-relações que afetam os humanos. “A descoberta de ponta, de vanguarda, é de que as realidades de diferentes dimensões sobrepõem-se, interpenetram-se” (LIMA, 2004, p. 102). Sendo assim a liberdade é total para inclusive reinventar a própria linguagem. A realidade do jornalismo na crônica se aproxima, então, de uma literatura não exatamente ficcional. Medina segue dizendo que a imaginação (criação) é fonte comum em qualquer pauta jornalística e que como criação (não-ficção) é a possibilidade de descoberta de ângulos que facilitem a identificação de problemas imanentes ou subjacentes dessa realidade. Esse poder criativo está presente no discurso jornalístico, pois são necessárias analogias retóricas para a compreensão de fenômenos que estão longe da percepção humana.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Crônica e livro

“No momento em que a crônica passa do jornal para o livro, temos a sensação de que ela superou transitoriedade e se tornou eterna” (SÀ, 1985, p.53). Em constante busca pela eternidade, a crônica vem ao longo dos anos mudando seu espaço de atuação, cada vez mais rara nos diários periódicos, que as utilizam apenas como entretenimento e paliativos para ocupar espaço de jornais. Segundo Lage (2005), os cronistas que se destacam são os que conseguem construir textos duráveis sobre realidades momentâneas. Isso porque a crônica da realidade aborda assunto referente a um determinado tempo e contexto social.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

A Crônica...

Definida como “uma lista de acontecimentos ordenados segundo a macha do tempo” por Moisés (2001), a crônica como palavra vem do grego chonikós que estava relacionada à chrónos que quer dizer tempo. Assim não estava preocupada de início com a interpretação dos fatos, mas pelo registro dos acontecimentos segundo Andrade (2005). Desse modo pode perceber a função da crônica como uma maneira de registrar os fatos exercendo, portanto uma das características jornalísticas. Ainda de acordo com o texto de Andrade, a crônica surge em 1799 na França, onde Julien Louis Geoffroy passa a fazer criticas diárias no Journal Débats. Nesse instante a crônica começa sua configuração textual de registrar/contar fatos reais com posicionamentos críticos.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

A literatura, o livro-reportagem e o Jornalismo

A literatura entra no livro-reportagem (Jornalismo) como um recurso para humanizar e construir personagens envolvidos na questão, detalhar os fatos e favorecer a prática narrativa. Além disso, Lima (2004) afirma que além de informar, o livro-reportagem orienta e explica o objeto descrito.

“O livro-reportagem apresenta-se com aprofundamento igualmente extensivo e intensivo. No primeiro caso, o número e a qualidade dos detalhamentos enriquecem a narrativa para um grau de informação idealmente superior aos dos veículos cotidianos. No segundo, a verticalização solidifica a real compreensão do tema e de sua precisa inserção no contexto contemporâneo”. (LIMA, 2004, p. 40).

A crônica da realidade e o livro-reportagem fazem parte do jornalismo literário, como tal, pode-se dizer que a crônica em livro se constitui como Livro-Reportagem crônica. Em livros, esses textos, crônicos, visam construir e auxiliar o entendimento da significação referente ao acontecimento da realidade de uma situação de um tempo e suas implicações na atualidade.

Time da casa ou time do coração?

Um fim de semana como tantos outros que vindoura nas terras ardentes de Juazeiro, se não fosse um bendito programa típico dos brasileiros que reúne, na frente da televisão, os habitantes dessa cidade: A partida entre Flamengo x Botafogo pela disputa da Taça Guanabara do Campeonato Carioca de Futebol. Sim, mas qual a relação entre esse jogo e a "cidade da terra do sol" como Juazeiro é chamada pelos estudantes oriundos da capital baiana? E por que o Juazeiro já ficou sem público no mesmo dia em que havia jogo do Flamengo?

Em frente ao reformado posto municipal de saúde do bairro São Geraldo pode se ver casas. Estas com frentes arborizadas e local onde, nas primeiras horas da manhã pacientes que disputam dez “ingressos” de atendimento no centro médico se aglomeram em longas filas na esperança de serem medicados por um enfermeiro, é ocupado, agora, pelos “seus donos” que instalam cadeiras e mesas para reunir parentes e amigos durante o jogo “no calçadão irregular e azulejado da sua porta”. Com portas e janelas escancaradas e grande algazarra, dá a entender que não se trata de mais uma reunião familiar de domingo.

O evento começa às 18 horas e 10 minutos no estádio da Maracanã na terra do samba e aqui, sob os olhos do nego d`água, os juazeirenses, com extraordinária euforia, alojam-se defronte “da maior invenção da humanidade” para acompanhar, pela emissora do Plim Plim, a transmissão do combate esportivo.

No asfalto que cruza as adjacências do São Geraldo, uma carroça levando capim pleiteava com veículos, movidos a derivados do petróleo, uma cavidade pela qual pudesse passar. As ruas estreitas e as calçadas “particulares” fazem com que trausentes, carros, bicicletas, vacas, cavalos e porcos disputem o mesmo espaço. Aos 27 minutos de bola no campo o terrível acontece: O Botafogo faz o primeiro gol, para desespero do senhor albino de meia idade, que conduzia um robusto jegue pé-duro responsável pelo movimento de sua carroça, enquanto ouvia a narração do jogo num aparelho celular. Seria a fusão do antigo e o moderno? Será mais uma vítima do capitalismo selvagem ou é “apenas” uma forma de inclusão tecnológica?

O jovem porteiro negro da escola Aprígio Duarte se concentra para tentar, em meio a ruídos técnicos do aparelho, ouvir a narração do jogo, que já está no 2º tempo, no seu encanecido e ultrapassado rádio de pilha. Herança da antiga Rádio Globo que transmitia os campeonatos cariocas a nível nacional fazendo com que se criasse o hábito de torcer pelo Flamengo. Será que é por isso que esse time tem a maior torcida do país?

De repente: O árbitro marca pênalti contra o botafogo. O jogador flamenguista Íbson prepara-se para cobrar o pênalti. Gooooooooooool! Pronto. Bastou o Flamengo colocar a bola na rede para que o vigilante acometido de tamanho júbilo saísse correndo desesperado pela rua, deixando sua guarita à paisana.

No bar de Edi, famoso por fornecer marmitas aos estudantes da Uneb e pela frase “acabou a cerveja”, quando os acadêmicos resistem até tarde a consumir no seu estabelecimento, deixa de canto o som de ritmos variados para ceder lugar à televisão. Sentados em mesas, os torcedores “comem água” enquanto observam o jogo. Muitos deles estão com camisas "genéricas" do Clube carioca, compradas provavelmente num conglomerado de barracas, onde comerciantes de todos os gêneros exibem sua mercadoria para os fregueses que ali circulam. È o mercado popular de Juazeiro.

Tardelli faz o segundo gol para o Flamengo. Toda a cidade de Juazeiro comemora. Enquanto isso, os jogadores do time juazeirense treinam para conseguir ser campeão baiano. Quando não há partida do Juazeiro no mesmo dia em que o Flamengo, é certo que o estádio Adauto Morais terá público e o time poderá contar, em algumas condições, com sua torcida fiel. Final de Jogo: 2 x1 flamengo.

É só culpa do mosquito?

Outro dia lá em casa a fera (chamamos assim a pessoa recém-chegada na residência estudantil de Juazeiro da Universidade do Estado da Bahia), amanheceu com mal estar, reclamando que não dormira à noite e que passara a madrugada em claro devido ás fortes dores que sentia. Estava com febre alta e dores nos olhos, então sugeri que fôssemos ao posto de saúde do bairro São Geraldo, defronte à nossa residência.

Então lembrei-me que esta não seria uma boa idéia, visto que no posto, além de ser difícil conseguir uma das dez vagas diárias de atendimento, corria o risco de não haver medicamento para abrandar suas dores. Até hoje espero minha consulta no otorrino que a “dedicada” recepcionista ficou de me ligar quando fosse marcada. Soubemos então, que o posto de saúde localizado atrás do Mercado Almeida atendia todos os casos de suspeita de dengue naquela localidade. Isso mesmo, naquela ocasião já tinha a convicção que a fera estava com dengue!
Após a hora do almoço fomos em direção ao tal posto médico. Saco vazio não para em pé ainda mais quando o saco está furado. Chegando lá encontramos o bendito posto com as portas fechadas e várias pessoas, com os mesmos sintomas da fera, esperando que o atendimento médico se iniciasse.

Às duas horas, a recepcionista, “sempre simpática e alegre, feliz com seu trabalho”, avisou que não teriam vagas suficientes para atender todas as pessoas presentes e que os enfermos que chegaram por último deveriam procurar o hospital da Santa Casa de Misericórdia, localizado no centro de Juazeiro, pois lá teria subsídios necessários a um bom atendimento dos doentes e para a confirmação da doença nos casos de suspeita de dengue.

Não tivemos remédio, seguimos para o hospital misericordioso. Assim que entramos no recinto, muita gente doente, moribunda, crianças chorando, um grande pandemônio, fizeram com que a fera, acometida de um milagroso restabelecimento, decidisse por voltar para casa e ser atendida no dia seguinte.

No outro dia, a adoentada não quis mais se consultar com os médicos, tomou algumas aspirinas de Paracetamol e começou a beber bastante liquido em casa, limitando-se a repousar.
Uma colega da outra residência feminina avisou-me que outra residente estaria com suspeita de dengue. Esta já havia ido ao tal hospital da Santa Casa e não conseguiu consulta, então passei a informação que nos fundilhos do mercado tinha um posto de atendimento aos doentes dengosos. Na hora pensei: “ontem não consegui o atendimento para a fera e hoje acabei sugerindo algo que não tinha sido satisfatório no dia anterior”. Mas o que eu iria fazer, se esta “vitima” também tinha ido à opção que eu julgava certa e não tinha sido atendida? Eu me senti na obrigação de oferecer uma esperança.

A cidade não está dando conta de diagnosticar os doentes e tampouco cuidar deles. Outro dia liguei para a prefeitura solicitando que o inseticida fosse disponibilizado no bairro São Geraldo, visto a grande quantidade de mosquitos Aedes aegypti encontrados na região, bem como a enorme quantidade de água parada existente no local. Do outro lado da linha o funcionário avisava que o material de combate ao mosquito da dengue estava escasso e não teria como passar no bairro.

Aí entendi o desespero do povo. Qualquer dorzinha de cabeça corre para os hospitais afirmando que está com dengue. As pessoas não vêem os agentes de saúde de combate a endemias nos seus bairros. A fera lá de casa avisou que não estava com dengue, pois suas dores passaram, era apenas uma mera gripe e a garota da outra residência (graças a Deus!) conseguiu ser atendida no posto dos fundos do Almeida, no caso dela o mosquito (fêmea) transmissor se alimentou do seu sangue.

E nos outros casos? E as crianças chorando nos hospitais, será que foi um resfriado, será que foram atendidas? “Quem souber morre”, quer dizer, mata o mosquito da dengue.

Cortejo carnavalesco



No começo da manhã ouço gritos de desespero, ao espreitar pela janela vejo uma senhora acompanhada de uma jovem que seguia aos prantos com as mãos sobre a cabeça pros lados do bairro Itaberaba. Entre seus gritos ela lamentava o que tinha ocorrido. Seu companheiro falecera.

Sabia apenas que era o dono do bar, apelidado por algumas acadêmicas, de Risca faca donde crianças e adultos se reuniam para jogar sinuca, beber e dançar embalados no freqüente e irritante som do grupo Garotos de Programa que tocava no aparelho eletrônico. Por que Garotos de Programa? Será uma alusão à exploração sexual tão característica na região ou o grupo optou por este denotar um aspecto positivo para a comercialização de suas músicas que por sinal refletem o nome dado à banda?

O carro utilizado para divulgar a morte do comerciante começava a entoar uma música triste de funeral informando e convocando a comunidade para prestar as últimas homenagens ao bom homem. São as notas de falecimento tão comum na cidade, hábito costumeiro dos moradores de Juazeiro onde todos sem distinção de classes, ricos, pobres, pretos, brancos recorrem a este meio de comunicação para dá ciência de um morto.

O veículo passa lentamente pelas ruas divulgando o que acabara de acontecer cruzando com o som de outros automóveis donde se pode escutar a certa distância músicas de uma banda com “influências inglesas” como o Marreta you Planeta, afinal estamos no carnaval e é preciso decorar as letras das canções dos artistas que estarão na cidade para quando estiver de abadá na avenida não fazer feio. E mais todos precisam saber que o carro tem um som potente e isso (quando homem) é sinônimo de masculinidade.

No bar do falecido também ocorriam, esporadicamente, a dança de São Gonçalo, um modo de pagamento de promessa ao Santo português por uma graça alcançada. Embora se trate de uma manifestação cultural religiosa é de se estranhar que esse ritual tão antigo não tenha espaço durante as festas ditas “populares” da cidade. Supõe-se que tal esquecimento das autoridades locais sejam os desvelos com as obras e monumentos públicos que enfeitam a cidade.

No começo da tarde, pode-se observar o cortejo funeral onde familiares e amigos em meio ao calor escaldante seguiam o artefato de madeira que continha o finado.

Chegando à frente da faculdade de agronomia, a comitiva fúnebre teve que redobrar a atenção visto que a saída e entrada de automóveis e motos dos portões que dá acesso à universidade aliado aos transportes públicos que trafegam numa agilidade digna de evento esportivo, poderiam causar mais um cadáver.

Ao passar pelos logradouros, curiosos moradores, comerciantes locais, principalmente, donos de açougues donde se desconhecem a origem e a qualidade dos produtos vendidos – muitas vezes esses estabelecimentos são abastecidos durante a noite, será que os consumidores teimam em comprar carne sem verificar sua procedência? - e trabalhadores de uma indústria de couro, que fica ás margens do Rio São Francisco, observam o mortuário lamentando o acontecimento nefasto.

Próximo á Avenida Adolfo Viana os parentes do morto decidem seguir pela orla, lembrando que o defunto gostava de ver o velho Chico nos fins da tarde de segunda, quando o seu botequim lhe dava algum descanso.

Gostava de Cruzar juazeiro e Petrolina abordo das barquinhas, meio pelo qual muitas pessoas utilizam diariamente para chegar a seus destinos embora não seja assegurada nenhuma norma de segurança já que os botes salvas vidas, que deveriam ser utilizados pelas pessoas logo que entrancem nas barcas não são fornecidos pelos funcionários desta condução limitando apenas a ficar no teto amarrado em redes. È possível também que os usuários, acometidos de um reflexo dos personagens de Velocidade Máxima II possam soltar deste meio fluvial de transportes a fim de se refrescar. O problema é que essas aventuras nem sempre terminam com o final feliz.

Sua companheira afirmava que o falecido, grande admirador das águas de Chico, andara preocupado nos últimos meses, pois o nível do rio teimava em apresentar numeração negativa e o jejum de D. Cáppio não fora suficiente para impedir que as obras da transposição do rio fossem retomadas. E os ribeirinhos, que estão pulando carnaval, parecem terem esquecido desta questão.

A ponte Presidente Dutra (que liga Juazeiro/Ba a Petrolina/Pe) se aproxima e o cortejo afugenta atenção para as obras que irão duplicá-la. Ultimamente a plataforma que liga Pernambuco a Bahia tem sido o pretexto de atrasos nos compromissos devido aos congestionamentos. È por ela que passa diariamente caminhões com mercadorias que vão para todos os cantos do mundo oriundo das fazendas de fruticultura dos dois estados. È a riqueza que brota da terra mais que não chega a um desprovido como o dono do boteco que hoje jaz no caixão.

Agora a corte fúnebre passa defronte pelo famoso bairro do Santo Antonio em direção ao cemitério municipal da cidade donde o proprietário do bar Risca faca irá se demudar e nos dias que se seguirem outros iguais a eles, fazedores dos mesmos planos e com preocupações e anseios parecidos irão ter o mesmo destino que ele.