No começo da manhã ouço gritos de desespero, ao espreitar pela janela vejo uma senhora acompanhada de uma jovem que seguia aos prantos com as mãos sobre a cabeça pros lados do bairro Itaberaba. Entre seus gritos ela lamentava o que tinha ocorrido. Seu companheiro falecera.
Sabia apenas que era o dono do bar, apelidado por algumas acadêmicas, de Risca faca donde crianças e adultos se reuniam para jogar sinuca, beber e dançar embalados no freqüente e irritante som do grupo Garotos de Programa que tocava no aparelho eletrônico. Por que Garotos de Programa? Será uma alusão à exploração sexual tão característica na região ou o grupo optou por este denotar um aspecto positivo para a comercialização de suas músicas que por sinal refletem o nome dado à banda?
O carro utilizado para divulgar a morte do comerciante começava a entoar uma música triste de funeral informando e convocando a comunidade para prestar as últimas homenagens ao bom homem. São as notas de falecimento tão comum na cidade, hábito costumeiro dos moradores de Juazeiro onde todos sem distinção de classes, ricos, pobres, pretos, brancos recorrem a este meio de comunicação para dá ciência de um morto.
O veículo passa lentamente pelas ruas divulgando o que acabara de acontecer cruzando com o som de outros automóveis donde se pode escutar a certa distância músicas de uma banda com “influências inglesas” como o Marreta you Planeta, afinal estamos no carnaval e é preciso decorar as letras das canções dos artistas que estarão na cidade para quando estiver de abadá na avenida não fazer feio. E mais todos precisam saber que o carro tem um som potente e isso (quando homem) é sinônimo de masculinidade.
No bar do falecido também ocorriam, esporadicamente, a dança de São Gonçalo, um modo de pagamento de promessa ao Santo português por uma graça alcançada. Embora se trate de uma manifestação cultural religiosa é de se estranhar que esse ritual tão antigo não tenha espaço durante as festas ditas “populares” da cidade. Supõe-se que tal esquecimento das autoridades locais sejam os desvelos com as obras e monumentos públicos que enfeitam a cidade.
No começo da tarde, pode-se observar o cortejo funeral onde familiares e amigos em meio ao calor escaldante seguiam o artefato de madeira que continha o finado.
Chegando à frente da faculdade de agronomia, a comitiva fúnebre teve que redobrar a atenção visto que a saída e entrada de automóveis e motos dos portões que dá acesso à universidade aliado aos transportes públicos que trafegam numa agilidade digna de evento esportivo, poderiam causar mais um cadáver.
Ao passar pelos logradouros, curiosos moradores, comerciantes locais, principalmente, donos de açougues donde se desconhecem a origem e a qualidade dos produtos vendidos – muitas vezes esses estabelecimentos são abastecidos durante a noite, será que os consumidores teimam em comprar carne sem verificar sua procedência? - e trabalhadores de uma indústria de couro, que fica ás margens do Rio São Francisco, observam o mortuário lamentando o acontecimento nefasto.
Próximo á Avenida Adolfo Viana os parentes do morto decidem seguir pela orla, lembrando que o defunto gostava de ver o velho Chico nos fins da tarde de segunda, quando o seu botequim lhe dava algum descanso.
Gostava de Cruzar juazeiro e Petrolina abordo das barquinhas, meio pelo qual muitas pessoas utilizam diariamente para chegar a seus destinos embora não seja assegurada nenhuma norma de segurança já que os botes salvas vidas, que deveriam ser utilizados pelas pessoas logo que entrancem nas barcas não são fornecidos pelos funcionários desta condução limitando apenas a ficar no teto amarrado em redes. È possível também que os usuários, acometidos de um reflexo dos personagens de Velocidade Máxima II possam soltar deste meio fluvial de transportes a fim de se refrescar. O problema é que essas aventuras nem sempre terminam com o final feliz.
Sua companheira afirmava que o falecido, grande admirador das águas de Chico, andara preocupado nos últimos meses, pois o nível do rio teimava em apresentar numeração negativa e o jejum de D. Cáppio não fora suficiente para impedir que as obras da transposição do rio fossem retomadas. E os ribeirinhos, que estão pulando carnaval, parecem terem esquecido desta questão.
A ponte Presidente Dutra (que liga Juazeiro/Ba a Petrolina/Pe) se aproxima e o cortejo afugenta atenção para as obras que irão duplicá-la. Ultimamente a plataforma que liga Pernambuco a Bahia tem sido o pretexto de atrasos nos compromissos devido aos congestionamentos. È por ela que passa diariamente caminhões com mercadorias que vão para todos os cantos do mundo oriundo das fazendas de fruticultura dos dois estados. È a riqueza que brota da terra mais que não chega a um desprovido como o dono do boteco que hoje jaz no caixão.
Agora a corte fúnebre passa defronte pelo famoso bairro do Santo Antonio em direção ao cemitério municipal da cidade donde o proprietário do bar Risca faca irá se demudar e nos dias que se seguirem outros iguais a eles, fazedores dos mesmos planos e com preocupações e anseios parecidos irão ter o mesmo destino que ele.

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